Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Houston: temos um problema

A Espanha(1) tem um problema. É uma terra onde uma pessoa pode ter estudos, cultura, saber estar, uma certa inteligência, sentidinho(2)... e dizer cousas do mais surpreendente. Às vezes tenho a sensação de ser um europeu no Japão, já que os costumes de um lugar tão afastado nunca deixarão de me produzir curiosidade e surpresa.

A Espanha(3) tem a capacidade de produzir um tipo de cidadão digno de ser observado por doutores em Medicina, Psicologia, Ciências Ocultas, Ciências das Outras e parte do estrangeiro. Para uma pessoa como eu, nunca criada em dogmas e sim com um pai desses chatos que levam sempre a contrária por desporto(4), não é normal que uma pessoa séria, culta, dialogante, pessoa, defenda a abolição da pena de morte e, sem ruborizar-se, diga que desfruta do assassinato de um animal, nisso que denominam tauromaquia para lhe dar um ar culto, mas que é chamado de toureio. Não o compreendo. E as respostas são dignas dos Arrepios(5): «é costume», «é tradição», «é arte» (esta é das melhores), «é cultura»... Depois alucinam quando sabem que polo mundo adiante comem cães ou gatos, e soltam pérolas do estilo «eu não seria capaz».

Na política há também uma conclusão a que chega muita mente preclara(6) e também não acabo de lhe pegar o senso. A Espanha(7) acaba, como quem di, de sair de uma ditadura das mais longas da Europa do século XX, se não a mais longa de todas. Parece que essa longa noite de pedra(8) afectou demais os espanhóis. Para um destes indivíduos entram na mesma saca as expressões «Estado democrático» e «ilegaliza-me esses filhos da puta»(9). Ou seja, vem como algo normal numa democracia(10) haver partidos legais e partidos ilegais. Também vem como algo normal deitar a opção de mais de cem mil pessoas à cuba do lixo. Assim como se lê: cem mil pessoas ficam sem poder votar a opção que desejam.

Não estamos a falar de dous ou três moinantes. Num suposto assim o governo de turno podia metê-los presos e deitar a chave. Não seria justo mas efectivo. O problema (para eles) é que o assunto basco não vai ser solucionado a base de acções policiais-clericais(11). Que exista nalgumas pessoas o sentimento de serem invadidos dá uma ideia da futilidade de tais acções. É complexo mas é assim.

O problema não fica aí. Em Euscádi(12) vivem actualmente num estado de excepção. Estão fartos tanto as vítimas dos assassinos quanto as vítimas dos torturadores. Naquele país expressar algumas opiniões dá-che amigos e inimigos instantaneamente. Curioso lugar onde, nas últimas eleições municipais(13), fôrom ilegalizadas candidaturas da Esquerda Abertzale(14). Há situações tão absurdas(15) como a de Lizartza, que em 2004 contava com 612 habitantes e cuja presidenta da Câmara Municipal foi escolhida por 27 votos. A vila era considerada «feudo da esquerda abertzale» até as passadas eleições. Desde outros lugares a presidenta é vista como uma heroína...

É curioso como os problemas se complicam conforme os temos mais perto.


Notas:
  1. Conceito abstracto utilizado quando se quer fazer referência aos países do Estado espanhol sem exclusões nem menções específicas. Que não me comam os indepes da retórica revolucionária.
  2. Aquilo que fora da Galiza costuma chamar-se de sentido comum, que, por outra banda, é o menos comum dos sentidos.
  3. Que sim: utilizarei essa palavra em troques do cansativo Estado espanhol.
  4. Outros fão a quiniela. O meu pensa de jeito oposto ao meu. Ou será ao revés? Cria corvos...
  5. Para os leitores residentes no Estado espanhol (agora sim!): Pesadillas.
  6. Não produz uma sensação curiosa isso de chamar atrasado mental sem que se note? Adoro ser galego!
  7. Deixa de olhar as notas e concentra-te no texto, que para isso é que o escrevo.
  8. Sim, eu também lim clássicos da literatura galega.
  9. Também é compatível para alguns demandar um referendum no Saara para decidir sobre a sua autodeterminação enquanto negam qualquer possibilidade de fazê-lo nalgum país do Estado espanhol. Spain is different.
  10. Ou isso que nos fão ver como democracia. Os significados cambiam conforme ao governo.
  11. Quer dizer, a base de hóstias.
  12. País Basco, Euskal Herria (se inclui Nafarroa/Navarra), Euskadi, provincias vascongadas... será por nomes.
  13. Ou autárquicas, para os lusófonos-não-galegos.
  14. Esquerda independentista basca.
  15. Ou descaradamente injustas.

De volta

Desculpas antecipadas a esses pouco leitores que de quando em vez me lembram que existe este lugar. Não escrevo desde há meses porque não tenho nada a dizer. Ou tinha. Acaso agora tenha. Passa por aqui de agora em diante e quiçá haja algo interessante. Nunca se sabe...

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

Um Escudo da Galiza


«As armas da Galiza que aqui expomos e que tentam ser um resumo de todas as simbologias galegas da História, estám conformadas polos seguintes elementos:

Esquartelado: O primeiro com as armas da Galiza compostelana; sobre fundo de azul com o graal no meio em ouro com a hóstia em prata saindo pola boca do cálice e a cada lado três cruzes recortadas em prata mais umha em cima do graal; em total sete. O segundo, sobre fundo de prata, umha cruz de Sam Jorge em Vermelho representado a primeira imagem vexilológica do Galleciense Regnum após a entrada dos mussulmanos na península na sua época asturiana. O terceiro, sobre fundo de prata, o leom rampante em púrpura representando a dignidade imperial da época leonesa. E o quarto, sobre fundo verde, a cruz de Cristo em vermelho como representaçom do vínculo histórico com Portugal e o mundo galaico-lusófono. Verde e vermelho de Portugal. As armas da Galiza estám escoltadas polo leom vermelho e o dragom verde da Casa real Sueva, os dous em posiçom rampante e enfrontados agarrando o escudo. Timbre: Um carvalho galego representando a força e o enraizamento dos galegos à sua Terra e à sua Língua. Por baixo a legenda em latim: GALLAECIA LUX ET LIBERTAS.»

Tanto o texto quanto a imagem fôrom obtidas do livro Bandeiras da Galiza, de José Manuel Barbosa. Quiçás estou a violar direitos de autor fazendo isto, mas no próprio livro Barbosa di que é uma proposta e que os próprios galegos somos quem teremos de escolhê-lo ou desbotá-lo. Como galego que são, considero-me no direito de me somar à proposta do Zê (desculpe o trato familiar se for preciso). Se qualquer pessoa que vir isto se sentir interessada neste desenho para o Escudo da Galiza, pregaria-lhe que o espalhe para se fazer popular. É um jeito precioso de não esquecermos a nossa História, nem nos símbolos.

Sábado, Agosto 18, 2007

As três vias do reintegracionismo

Há tempo que tenho de argumentar a amigos, colegas e interessados em geral os porquês de me fazer reintegracionista, de considerar a fala de aquém e de além-Minho como parte da mesma língua e de escrever em galego com a ortografia de Portugal (com matizes, claro). Há também um tempinho que pensei em escrever um texto mais ou menos longo onde explicar a minha teoria para ser reintegracionista, ora não haja um único motivo nem dogma para chegar às mesmas conclusões. Chamo isto (num excesso de originalidade pola minha parte) as três vias do reintegracionismo galego.


Primeira via

Quantas pessoas com anseios de pertencer a um grupo dêrom com os ossos em teorias de passado mítico e heróico? O nacionalismo galego está inçado nalgumas partes destas teorias, falando num passado celta que derivaria na actual cultura galega. Também se fala nos suevos e no Galliciense Regnum, o Reino da Galiza, para nos dar certos ares de superioridade cultural. Embora opine que isso é um erro, sempre se pode tomar a História como é e assumi-la sem pretensões de tipo nenhum. E, no caso da Galiza, historiadores como Anselmo Lopes Carreira começam a publicar ensaios onde nos contam como é que foi realmente o Reino galego, distinto dessa merdinha no noroeste peninsular que põem nos livros de História do sistema educativo, sospeitosamente parecida à actual autonomia. Nesse mitificado Reino surgiu, além da língua galegoportuguesa, um condado com identidade própria, Portucale, que se converteu posteriormente num Reino independente: Portugal. É em Portugal que a nossa língua floresceu sem as dificuldades do centralismo castelão, estendendo-se polo mundo (por vias imperialistas, não obstante) e convertendo-se em língua universal da Humanidade.

Apelando a este passado comum, podemos argumentar que, já que uma vez o galego e o português fôrom a mesma língua, ainda seguem a ser a mesma língua. Esta seria uma forma de chegar ao reintegracionismo mediante um passado semi-mítico, quase romântico: voltarmos a um status prévio, muito anterior ao actual, cujas características queremos recuperar.


Segunda via

Analisando textos do galegoportuguês medieval em que, lembremos, Afonso IX da Galiza -ou X de Castela, para os oficialistas- escreveu as suas Cantigas, podemos ver similitudes claríssimas entre o actual português padrão e também entre o castrapo normativo. O tronco comum é claro. Mas, se por acaso tentarmos analisar morfossintacticamente uma oração ou frase escrita em português padrão e a sua correspondente adaptação ao castrapo normativo, toparemos que a maior parte das diferenças serão ortográficas. Eis um exemplo:
A erva do jardim não deixava ver no chão as folhas caídas do carvalho e da azinheira.
A herba do xardín non deixaba ver no chan/chao as follas caídas do carballo e da aciñeira.
La hierba del jardín no dejaba ver en el suelo las hojas caídas del roble y de la encina.

O exemplo conta, aliás, com a correspondente tradução ao castelão para assim poder ver perfeitamente as profundas diferenças entre as duas primeiras frases e a última, além da sospeitosa semelhança ortográfica entre a segunda e a terceira.

Algumas diferenças que existem entre galego e português ficam consideradas dentro do normal entre dialectos da mesma língua. Assim, podemos topar uma frase no dialecto chileno do castelão e a sua tradução ao dialecto do centro peninsular:
El jueves se corre la polla.
El jueves se celebra el sorteo de la lotería.
É notável o câmbio de significado se um castelão lê a primeira frase em troques de ler a segunda (correrse é a gíria castelã para ejacular e polla é a gíria do pênis, caralho). Porém, seguem a ser a mesma língua. Outro exemplo típico pode ser o do dialecto argentino e a sua adaptação ao da península:
Che, sos un boludo, pensáte lo de esta noche, que nos vamos de joda después de laburar.
Tío/Colega, eres un gilipollas, piénsate lo de esta noche, que nos vamos de fiesta después de trabajar.
Aqui podemos ver incluso um câmbio nas formas verbais (pensá-piensa, sos-eres), algo que sempre se argumenta em contra da unidade galegoportuguesa. Também se vê uma variação do significado dalguns termos (joda é a gíria de festa, enquanto na península é uma variação do verbo joder, gíria de molestar ou praticar o acto sexual, foder). Mais um exemplo:
Agarra/Agarrá las llaves del auto.
Coge las llaves del coche.
Novamente temos uma frase que, lida por um falante doutro dialecto, tem mesmo conotações de vulgaridade (coger é a gíria de praticar o acto sexual, foder, em muitos países de Hispanoamérica).

Por outra banda, está a divergência entre alguns fonemas utilizados no resto da lusofonia e os utilizados na Galiza. Para isto também é possível utilizar os critérios empregados no sistema da língua castelã, dado que o dialecto propriamente castelão é ceceante, com um fonema parecido ao /th/ de thought (palavra inglesa), enquanto praticamente a totalidade do resto de falantes são sesseantes, isto é, não distinguem na sua fala entre s e z ou c. Também o castelão carece de sibilantes sonoras do estilo do /z/ de nazione (palavra italiana), enquanto muitos falantes de Hispanoamérica e mesmo de Andaluzia e a Estremadura espanhola utilizam este fonema como algo natural. Isso sem contar os múltiplos sons que os falantes dão às grafias y e ll: desde a forma uruguaio-argentina do famoso yo (que soa parecido com ) ao que se utiliza por falantes cântabros (que soa quiçás como ). Sem esquecermos a diferença entre b e v, inexistente no dialecto castelão, porém muito marcada noutros.

Portanto, demonstrada a existência de formas verbais ou léxico localizados geograficamente na mesma língua castelã, como é que um conhecedor desta língua, como pode ser qualquer galego escolarizado ultimamente, pode contestar a unidade galegoportuguesa? Por motivos puramente políticos.

Chegámos, então, ao reintegracionismo utilizando dous critérios pseudo-filológicos (eu não são filólogo, uma pessoa com esses conhecimentos poderá dar uma explicação mais rigorosa): observando que as diferenças entre português e castrapo são basicamente estéticas, devidas à ortografia, e comparando a classificação entre língua e dialecto do sistema mais próximo do galegoportuguês (o castelão), observando a sua aplicação. Que dá como resultado que galego e português são dous dialectos da mesma língua.


Terceira via

Quando nenhum dos outros jeitos nos convence (nem romântico nem científico-filológico), ainda nos resta uma outra visão da língua: o pragmatismo. Um falante de galego terá muitíssimas dificuldades para ler os clássicos universais adaptados ao castrapo. As traduções são poucas e não especialmente boas. Também não é doado toparmos bibliografia técnica ou específica dum ramo da ciência ou da tecnologia, porque as editoras não vem a sua saída ao mundo mercantil segundo a visão capitalista da literatura.

O que pode fazer um galego? Muitos costumam capitular e optar pola bibliografia em castelão, e todos sabemos que praticamente todos os clássicos universais da literatura, se não todos, têm uma tradução a essa língua. Do mesmo jeito, é relativamente fácil topar um livro técnico, escrito originalmente em inglês, na sua edição castelã.

Mas, e se pudêssemos ter a suficiente capacidade para não termos de recorrer a uma língua totalmente distinta da nossa? Mesmo se opinássemos que galego e português não são a mesma língua, o seu parecido é inegável por muito obcecados que pudêssemos estar. O problema é a falta de costume de os galegos lermos em português padrão. E escrevermos, obviamente.

Tendo dominada a leitura do padrão de Lisboa, podemos aceder a toda a literatura universal já traduzida e, mesmo, às edições originais da literatura de Portugal e os países lusófonos da Ásia e da África. E, com um pequeno esforço, poderíamos compreender sem problemas a ortografia e o léxico próprios do Brasil.

Um galego, polo facto de nascer no Estado espanhol, tem a obriga de aprender a língua castelã. Os galegos, por graça da História, podemos dispor de duas línguas universais para nos comunicar com o resto do mundo: castelão e português (ou galegoportuguês). E isso sem contarmos com que nas escolas sempre se ensina uma língua estrangeira (mesmo mais estrangeira do que o castelão), quer inglês, quer francês ou alguma outra. Portanto, um galego que aprenda desde a escola português, castelão e, posteriormente, inglês, tem à sua disposição três línguas universais. Duvido muito que, por exemplo, os catalães ou os bascos tenham tanta sorte como nós (basicamente porque o português é falado, apenas no Brasil, por mais de cento e oitenta milhões de pessoas, sem falar na distribuição geográfica, em quatro continentes). O português, embora não seja um dado conhecido, é a segunda língua da internet em número de sítios web, após o inglês. É também a terceira língua mais estendida do mundo, após inglês e castelão, e a quinta em número de falantes. Ou seja, que o pretenso argumento de que o galego não tem saídas pode ser bem matizado segundo a minha visão pragmática.

Em oposição com todo o anterior, o castrapo quase nem é reconhecido oficialmente, produzindo-se situações como a de um deputado galego no parlamento europeu não poder fazer uma intervenção sem avisar várias semanas antes. Isto, obviamente, não acontece com o português, porque a União Europeia conta com vários tradutores e intérpretes fixos. Nem falar no castelão ou o inglês. Daí que suponha muito mais produtivo para o sistema educativo galego e para os alunos deixar o actual castrapo e introduzir no ensino o padrão português. Isso sim, sem esquecermos que falamos português da Galiza ou galego, não lisboeta ou brasileiro.

E, finalmente, chegámos ao reintegracionismo pola via da utilidade, do pragmatismo, sem apelarmos a passados míticos ou argumentações filológicas. Simples: reintegracionismo é futuro, é trabalho, é acesso à cultura; isolacionismo é chauvinismo, é cerração mental, é a morte da língua nas litúrgias da Junta da Galiza.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

Castelão e a volta à Pátria

Continuando com o tema do artigo anterior, gostaria de explicar alguma cousinha que se dá por sabida no vídeo, mas que supõe uma peça fundamental para entendermos as circunstâncias daquilo que vemos.

Castelão dixera no seu testamento político, Sempre em Galiza, que o seu desejo era voltar à sua Terra, à sua Pátria, unicamente quando ela for livre. Livre para decidir o seu futuro, para ser dona e senhora da sua autodeterminação. Pensemos um minutinho no panorama sócio-político do ano 1984:
  • O general Franco finou há apenas cinco anos, tempo insuficiente para cambiar os costumes, quer da população com anseios de revolução, quer da Polícia (los mierdas, na gíria castelã da época) com modos próprios ainda da ditadura.
  • O governo de Madrid conta com um partido socialista com uma visão extremadamente centralista do Estado. Por se não fora suficiente, a imagem da Espanha no exterior será novamente identificada com os touros e a cultura andaluza.
  • O governo do novo parlamentinho está em mãos da coaligação Alianza Popular, hoje Partido Popular. Para quem não souber, o PP é um partido centralista espanhol, que considera um prémio facilitar o acesso a um posto em Madrid e um exílio fazer política na Galiza. Em troques de servir de instrumento da vontade popular, o parlamentinho está a ser continuadora da mentalidade franquista.
Com estes antecedentes, e sabendo que Castelão sempre considerara como os inimigos os "Fragas" do mundo, é um chisco chocante que seja o próprio governo antinacionalista que tome a iniciativa de trazer os restos do herói galego. Pode ser interpretado, como de facto se fizo, como um jeito de manipular a memória do finado para utilizar a sua imagem de ícone nacional e tirar proveito. Ainda direi mais, esse pretenso galeguismo do PP está integramente baseado na manipulação de figuras históricas do nacionalismo.

Dado que a Galiza, em 1984 e hoje, não contava com os meios para exercer a sua autodeterminação plena, uma parte do galeguismo interpretou a repatriação dos restos de dom Daniel como uma traição. Deste jeito compreendem-se melhor os berros de "A Castelão não se traiciona" [ou, mais jeitoso, "O Castelão não se trai" ] e "Galiza ceive, poder popular" da gente que foi receber esta figura mítica do galeguismo.

Ainda se considera mais traição a utilização da sua figura, da figura dum autodeterminista e reintegracionista como ele, para a criação das Medallas Castelao por parte dum governo que nem reconhece a existência da nossa nação nem a do chamado Estado colonial. É um insulto à memória.

A voz em off, de todos os jeitos, deixa pouco espaço a mais explicações citando o Novoneyra e o próprio Castelão. O certo é que arrepia os cabelos, estremece, turba extraordinariamente, ouvir o clamor, quer da gente lá reunida, quer da periodista quando di: Quando Risco era alguém [...] ensinou a todos que Galiza é uma nação.

Terça-feira, Agosto 07, 2007

Os restos de Castelão

Bom dia para quem se tomar a moléstia de ler estas linhas. Bem certo é que levo meses sem escrever, mas a causa é uma mistura de exames, estudo e falta de ideias. Por isso, hoje serei um pouco chafalheiro e enchirei parte do espaço desta entrada com um vídeo, que comentarei noutro momento:

Segunda-feira, Maio 28, 2007

Ganhadores todos

Que bonitas são as eleições na Espanha. Todos ganham. Ninguém perde (excepto essa enorme mentira que é o novo Partido Galeguista, afortunadamente). Os do PSOE obtêm mais representantes nas câmaras municipais, o que se traduz em mais poder. Os do PP obtêm mais votos, o que se traduz em celebrações vãs e patéticas -sobretudo em Vigo, com essa caricatura antítese do galeguismo chamada Corina Porro-. Eis as razões:

O facto de o PP ter mais votos não é motivo de vitória para ninguém. O motivo fica em os conservadores espanhóis não serem democratas, não entenderem o que significa "governo do povo". Dado que governar sempre uns sobre os outros apenas constituiria um pobre exercício de despotismo, os representantes dos cidadãos devem pactuar entre eles. O circo mediático que é a democracia espanhola permite com um terço dos votos um partido ter esse demo malparido que se chama maioria absoluta de representantes (isto é, a metade e mais um). Assim, na teoria, os governos são mais estáveis, mais fortes. E eu pergunto: o que se pretende numas eleições? Rapinar o poder? Ou acaso a cousa consistia em o povo governar através de delegados?

Voltando ao facto de o PP não estar conformado senão por fascistas disfarçados e pseudodemocratas conservadores que não têm partido de seu onde meter o cu, a direita espanhola não se sentiria cómoda com uma política de acordos. Lembremos que se consideram depositários da única e real vontade popular (engraçado isso), da defesa dos direitos humanos (não casam homossexuais), do progresso (são conservadores!!), da legitimidade constitucional (num começo contra a constituição actual. Agora parece que a pariram), da democracia (os membros fundadores fôrom ministros da ditadura), da rehóstia (disto são donos absolutos. São a hóstia e gostam de reparti-las).

Portanto, após uma votação, uma assembleia ou parlamento fica com tantos representantes do PP, outros mais ou menos do PSOE e alguns de outros partidos. Tudo cambia em função da vila, cidade ou país, mas em quase todos existe um facto constante: o PP não tem com quem pactuar. É razão de vitória ficar só em todas as câmaras de representantes? De que serve ser a candidatura mais votada se não há vontade de acordo?

O PSOE, que não é em absoluto santo da minha devoção, mantém não obstante um espírito muitíssimo mais aberto. Daí que podam governar a Junta da Galiza, as câmaras municipais de Vigo, Crunha, Ferrol, Cambre, Colheredo, Ourense, Lugo e um longo etcétera sem necessidade desse engendro antidemocrático da maioria absoluta (melhor dito absolutista). Sem necessidade de se impor. E, sobretudo, com necessidade de pactuar. Com necessidade de falar.

Domingo, Maio 20, 2007

Pais preocupados

Não sei muito bem como dei caído aqui e, para a minha surpresa (nunca perderei a capacidade de fazê-lo) os meus olhos lêrom com incredulidade o seguinte texto (copiado integramente):
«Un grupo de padres y de profesores de enseñanza primaria, secundaria y universitaria nos hemos reunido a causa del Plan de Normalización Lingüística de la Xunta de Galicia. Conscientes del problema de aprendizaje que plantea para niños castellanoparlantes, y seguros de la pérdida de calidad que supone dictar una clase en la que no es tu lengua habitual, hemos escrito un manifiesto para pedir la paralización de este proceso. También recogemos la preocupación de aquellos padres que, viviendo en un contexto de comunicación habitual en gallego, sólo reciben enseñanzas en este idioma. Por esto, queremos hacerles llegar esta corriente de preocupación a la vez que la posibilidad de adherirse a nuestra petición, amparada por principios fundamentales de la persona»...
Não gosto de utilizar a falácia como se fosse um argumento mas, como bem di um dos comentaristas do blogue onde topei a notícia, onde é que estavam estes cidadãos com tanto senso do civismo quando os lusófonos tivêrom de ser escolarizados integramente em castelão*?

Quanto ao facto de haver galegos que vem vulnerados os seus direitos por escolarizar os filhos em galego, tenho várias cousas que dizer:
  1. Considero que é bem distinto ser galego legalmente do que culturalmente. Fum galego administrativamente desde o momento de nascer, mas penso que não comecei a sê-lo culturalmente até tentar fazer parte do Tudo que são a Galiza, o galego e os galegos (e galegas e galegues).
  2. Opino que as pessoas que educam os filhos na casa em castelão (direito inalienável, meu Deus!) e mantêm esta luita para evitar que o fagam em galego na escola têm mentalidade de colono. Quer dizer: todos os dias os políticos espanholistas falam desse ente invisível e indefinível que é a España plural, que inclui culturas tão diversas como a castelã, a catalã, a andaluza, a basca e, naturalmente, a galega. Todos os dias ouço e leio louvores à felicidade que supõe sermos tão diversos. Então por que agem como se as culturas distintas da espanhola [A espanhola, espanhola, cuidado. As culturas rústicas não contam] fossem inferiores, como se fossem próprias de colónias? Por que têm essa repulsa, esse complexo?
  3. Penso que essa
    preocupación de aquellos padres que, viviendo en un contexto de comunicación habitual en gallego, sólo reciben enseñanzas en este idioma
    é absurda, própria de gente ignorante e com um forte complexo de inferioridade. Se és lusófono e não queres que os teus filhos sejam educados em galego, tens um problema de identidade grave.
  4. Por outra banda, criticar as galescolas, infantários onde a única língua utilizada é o galego, argumentando que o farão independentemente da língua materna do meninho, é outro absurdo. Isso nunca prejudicará o meninho, mas ao contrário, terá duas línguas nas que se basear à hora de se exprimir.
  5. Para rematar, quero tranquilizar todos esses pais preocupados por os seus meninhos serem educados numa língua distinta do castelão pensando que isto fará com eles não a aprenderem bem. Os meios de comunicação estão absolutamente copados por esta língua, polo menos na Galiza. Enquanto isso não cambiar, um falante de galego verá-se muitíssimo mais prejudicado do que um de castelão. Pode-se aprender a segunda apenas prendendo o rádio, o televisor ou lendo um periódico ou um livro. A publicidade também está em castelão, mesmo em zonas cento por cento lusófonas. Quem está em perigo, senhores?
Menos demagogia e mais normalizar o galego. Saúde, Terra... e Língua.

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*E não falo do meu caso porque a minha primeira língua não foi o galego (ó, Senhor, um neofalante!!). Ainda que não o fosse, não o aprendim na escola, mas com a minha família dum jeito indirecto. São uma espécie de semineofalante. Um extraterrestre.