Primeira viaQuantas pessoas com anseios de pertencer a um grupo dêrom com os ossos em teorias de passado mítico e heróico? O nacionalismo galego está inçado nalgumas partes destas teorias, falando num passado celta que derivaria na actual cultura galega. Também se fala nos suevos e no Galliciense Regnum, o Reino da Galiza, para nos dar certos ares de superioridade cultural. Embora opine que isso é um erro, sempre se pode tomar a História como é e assumi-la sem pretensões de tipo nenhum. E, no caso da Galiza, historiadores como Anselmo Lopes Carreira começam a publicar ensaios onde nos contam como é que foi realmente o Reino galego, distinto dessa merdinha no noroeste peninsular que põem nos livros de História do sistema educativo, sospeitosamente parecida à actual autonomia. Nesse mitificado Reino surgiu, além da língua galegoportuguesa, um condado com identidade própria, Portucale, que se converteu posteriormente num Reino independente: Portugal. É em Portugal que a nossa língua floresceu sem as dificuldades do centralismo castelão, estendendo-se polo mundo (por vias imperialistas, não obstante) e convertendo-se em língua universal da Humanidade.
Apelando a este passado comum, podemos argumentar que, já que uma vez o galego e o português
fôrom a mesma língua, ainda
seguem a ser a mesma língua. Esta seria uma forma de chegar ao reintegracionismo mediante um passado semi-mítico, quase romântico: voltarmos a um
status prévio, muito anterior ao actual, cujas características queremos recuperar.
Segunda viaAnalisando textos do galegoportuguês medieval em que, lembremos, Afonso IX da Galiza -ou X de Castela, para os
oficialistas- escreveu as suas
Cantigas, podemos ver similitudes claríssimas entre o actual português padrão e também entre o castrapo normativo. O tronco comum é claro. Mas, se por acaso tentarmos analisar morfossintacticamente uma oração ou frase escrita em português padrão e a sua correspondente
adaptação ao castrapo normativo, toparemos que a maior parte das diferenças serão ortográficas. Eis um exemplo:
A erva do jardim não deixava ver no chão as folhas caídas do carvalho e da azinheira.
A herba do xardín non deixaba ver no chan/chao as follas caídas do carballo e da aciñeira.
La hierba del jardín no dejaba ver en el suelo las hojas caídas del roble y de la encina.
O exemplo conta, aliás, com a correspondente tradução ao castelão para assim poder ver perfeitamente as profundas diferenças entre as duas primeiras frases e a última, além da
sospeitosa semelhança ortográfica entre a segunda e a terceira.
Algumas diferenças que existem entre galego e português ficam consideradas dentro do
normal entre dialectos da mesma língua. Assim, podemos topar uma frase no dialecto chileno do castelão e a sua tradução ao dialecto do centro peninsular:
El jueves se corre la polla.
El jueves se celebra el sorteo de la lotería.
É notável o câmbio de significado se um castelão lê a primeira frase em troques de ler a segunda (
correrse é a gíria castelã para
ejacular e
polla é a gíria do
pênis,
caralho). Porém, seguem a ser a mesma língua. Outro exemplo típico pode ser o do dialecto argentino e a sua adaptação ao da península:
Che, sos un boludo, pensáte lo de esta noche, que nos vamos de joda después de laburar.
Tío/Colega, eres un gilipollas, piénsate lo de esta noche, que nos vamos de fiesta después de trabajar.
Aqui podemos ver incluso um câmbio nas formas verbais (pensá-piensa, sos-eres), algo que sempre se argumenta em contra da unidade galegoportuguesa. Também se vê uma variação do significado dalguns termos (
joda é a gíria de
festa, enquanto na península é uma variação do verbo
joder, gíria de
molestar ou
praticar o acto sexual,
foder). Mais um exemplo:
Agarra/Agarrá las llaves del auto.
Coge las llaves del coche.
Novamente temos uma frase que, lida por um falante doutro dialecto, tem mesmo conotações de vulgaridade (
coger é a gíria de
praticar o acto sexual,
foder, em muitos países de Hispanoamérica).
Por outra banda, está a divergência entre alguns fonemas utilizados no resto da lusofonia e os utilizados na Galiza. Para isto também é possível utilizar os critérios empregados no sistema da língua castelã, dado que o dialecto propriamente castelão é
ceceante, com um fonema parecido ao /th/ de
thought (palavra inglesa), enquanto praticamente a totalidade do resto de falantes são
sesseantes, isto é, não distinguem na sua fala entre
s e
z ou
c. Também o castelão carece de sibilantes sonoras do estilo do /z/ de
nazione (palavra italiana), enquanto muitos falantes de Hispanoamérica e mesmo de Andaluzia e a Estremadura espanhola utilizam este fonema como algo natural. Isso sem contar os múltiplos sons que os falantes dão às grafias
y e
ll: desde a forma uruguaio-argentina do famoso
yo (que soa parecido com
xô) ao que se utiliza por falantes cântabros (que soa quiçás como
iô). Sem esquecermos a diferença entre
b e
v, inexistente no dialecto castelão, porém muito marcada noutros.
Portanto, demonstrada a existência de formas verbais ou léxico localizados geograficamente na mesma língua castelã, como é que um conhecedor desta língua, como pode ser qualquer galego escolarizado ultimamente, pode contestar a unidade galegoportuguesa? Por motivos puramente políticos.
Chegámos, então, ao reintegracionismo utilizando dous critérios pseudo-filológicos (eu não são filólogo, uma pessoa com esses conhecimentos poderá dar uma explicação mais rigorosa): observando que as diferenças entre português e castrapo são basicamente estéticas, devidas à ortografia, e comparando a classificação entre língua e dialecto do sistema mais próximo do galegoportuguês (o castelão), observando a sua aplicação. Que dá como resultado que galego e português são dous dialectos da mesma língua.
Terceira viaQuando nenhum dos outros jeitos nos convence (nem romântico nem científico-filológico), ainda nos resta uma outra visão da língua: o pragmatismo. Um falante de galego terá muitíssimas dificuldades para ler os clássicos universais adaptados ao castrapo. As traduções são poucas e não especialmente boas. Também não é doado toparmos bibliografia técnica ou específica dum ramo da ciência ou da tecnologia, porque as editoras não vem a sua saída ao mundo mercantil segundo a visão capitalista da literatura.
O que pode fazer um galego? Muitos costumam capitular e optar pola bibliografia em castelão, e todos sabemos que praticamente todos os clássicos universais da literatura, se não todos, têm uma tradução a essa língua. Do mesmo jeito, é relativamente fácil topar um livro técnico, escrito originalmente em inglês, na sua edição castelã.
Mas, e se pudêssemos ter a suficiente capacidade para não termos de recorrer a uma língua totalmente distinta da nossa? Mesmo se opinássemos que galego e português não são a mesma língua, o seu parecido é inegável por muito obcecados que pudêssemos estar. O problema é a falta de costume de os galegos lermos em português padrão. E escrevermos, obviamente.
Tendo dominada a leitura do padrão de Lisboa, podemos aceder a toda a literatura universal já traduzida e, mesmo, às edições originais da literatura de Portugal e os países lusófonos da Ásia e da África. E, com um pequeno esforço, poderíamos compreender sem problemas a ortografia e o léxico próprios do Brasil.
Um galego, polo facto de nascer no Estado espanhol, tem a obriga de aprender a língua castelã. Os galegos, por graça da História, podemos dispor de duas línguas universais para nos comunicar com o resto do mundo: castelão e português (ou galegoportuguês). E isso sem contarmos com que nas escolas sempre se ensina uma língua
estrangeira (mesmo
mais estrangeira do que o castelão), quer inglês, quer francês ou alguma outra. Portanto, um galego que aprenda desde a escola português, castelão e, posteriormente, inglês, tem à sua disposição três línguas universais. Duvido muito que, por exemplo, os catalães ou os bascos tenham tanta sorte como nós (basicamente porque o português é falado, apenas no Brasil, por mais de cento e oitenta milhões de pessoas, sem falar na distribuição geográfica, em quatro continentes). O português, embora não seja um dado conhecido, é a segunda língua da internet em número de sítios web, após o inglês. É também a terceira língua mais estendida do mundo, após inglês e castelão, e a quinta em número de falantes. Ou seja, que o pretenso argumento de que
o galego não tem saídas pode ser bem matizado segundo a minha visão pragmática.
Em oposição com todo o anterior, o castrapo quase nem é reconhecido oficialmente, produzindo-se situações como a de um deputado galego no parlamento europeu não poder fazer uma intervenção
sem avisar várias semanas antes. Isto, obviamente, não acontece com o português, porque a União Europeia conta com vários tradutores e intérpretes fixos. Nem falar no castelão ou o inglês. Daí que suponha muito mais produtivo para o sistema educativo galego e para os alunos deixar o actual castrapo e introduzir no ensino o padrão português. Isso sim, sem esquecermos que falamos português da Galiza ou galego, não lisboeta ou brasileiro.
E, finalmente, chegámos ao reintegracionismo pola via da utilidade, do pragmatismo, sem apelarmos a passados míticos ou argumentações filológicas. Simples: reintegracionismo é futuro, é trabalho, é acesso à cultura; isolacionismo é chauvinismo, é cerração mental, é a morte da língua nas litúrgias da Junta da Galiza.