Quarta-feira, Novembro 22, 2006

Cidadãos?

Antes das eleições catalãs, os que olhámos a imprensa esses dias, pudemos ver nascer (mais ou menos), crescer e maturar até chegar ao Parlament uma nova força política catalã: Ciutadans - Partit de la Ciutadania (Cidadãos - Partido da Cidadania). Para poder opinar, hei-de me informar, digo eu. A leitura do seu programa eleitoral está a ser entretida, já que, agachado num suposto novo partido dos cidadãos estão os snobes de sempre a dizer que não querem que os obriguem a falar catalão.

No primeiro ponto do seu programa falam do
dret dels ciutadans de Catalunya a recórrer al Defensor del Poble [...] per a defensar els seus drets i llibertats quan aquestes es vegin amenaçades pels poders públics [...] autonòmics, locals o nacionals.
Reclamar este direito é natural, dado que a figura do Defensor do Povo deveria agir realmente e atender as reclamações dos cidadãos se se virem ameaçados nalgum senso por poderes... nacionais? De que nação? Da espanhola, suponho, já que falam de autonómicos (o que eu, por exemplo, nalguns casos, denominaria nacionais. Questão de escolher as palavras). Então reconhecem a existência de uma nação. Nação que, por não ser a catalã, já lhes dá -na teoria- liberdade para se declararem anti-nacionalistas. São anti-nacionalistas, mas reconhecem nações. Não compreendo. Declarar-se anti-nacionalista e não questionar a existência da nación espanhola é um absurdo. É mentir à gente.
Protestam também pola
indefensió que suposa per als ciutadans l'exclusivitat del Síndic de Greuges en la gestió i canalització de les queixes dels catalans sobre l'Administració autonòmica.
Ou seja, que não confiam no Síndic de Greuges, imagino que por pertencer à administração do âmbito da Generalitat, e por isso pedem o direito a recorrer a um funcionário do âmbito estatal (nacional para os anti-nacionalistas). Curioso é que não desconfiem deste funcionário, nem declarem indefensió neste caso. Tanto tem se há um ou vinte funcionários dispostos a escuitar as tuas queixas se não che fão caso (ou se não confias neles, claro). Que se passaria se o Defensor do Povo não escuitasse as queixas contra o governo do Estado em Madrid, como já ocorreu com o Pepê?

Rejeitam a
identificació de Catalunya amb una llengua
e defendem a
llibertat lingüística individual com principi irrenunciable.
Penso que é engraçado questionar as nações do Estado espanhol se identificarem com uma língua quando o próprio Estado tem uma única língua oficial em todo o seu território: a língua de Castela. Isso não se questiona? Uma cousa é agredir as liberdades de cada pessoa, cousa com a que não estou de acordo, mas bem distinto é falar da língua que se vai usar na administração, na documentação oficial, etc. Não penso que seja uma agressão de tipo nenhum exigir a um funcionário que aprenda a língua dos vizinhos para os que vai trabalhar. Se não, haverá que voltar aos grunhidos e os acenos com as mãos. Ou acaso a língua não é para nos comunicar?
E continuam com a pêrola:
Catalunya és una societat bilingüe en la qual el català i el castellà conviuen harmònicament i es complementen com llengües habituals d'ús, enriquint el patrimoni lingüístic i cultural de tots els catalans.
Estou de acordo com que o facto de os cidadãos conhecerem várias línguas enriquece uma sociedade. Porém, dizer que o catalão e o castelhano convivem harmonicamente é uma total hipocrisia. As teses do bilinguismo harmónico aplicadas na Galiza demonstram todos os dias o fracasso dessas mentiras. O galego, tal como se concebe, em convivência harmónica com o castelhano, corre perigo de desaparecer antes de final de século. Não sei o que entenderão estes Cidadãos por harmonia, mas o assassinato que está a levar silenciosamente o galego ao seu passamento não parece muito harmónico.

Rejeitam
qualsevol intent de violentar, des de les instàncies oficials, la llibertat lingüística dels ciutadans en la seva activitat privada, ja afecti aquesta als usos lingüístics en empreses o associacions, la retolació de comerços o l'atenció al client.
Acho que se estão a misturar cousas. Não é o mesmo falar dos usos linguísticos nas empresas e associações no seu âmbito privado, interno, do que falar de rotulação e atenção ao cliente, ambas ligadas à cousa pública. As empresas e associações, na teoria, existem para satisfazer necessidades dos cidadãos. E voltamos ao de sempre: se os cidadãos são catalães, a máxima instituição da que dispõem (a Generalitat) deverá garantir que, se esses cidadãos quiserem ser atendidos na língua da Catalunha, podam fazê-lo. Para algo é a língua própria dos catalães. Se o Estado não o protege em todo o território, será a Catalunha a encarregada de fazê-lo.

Procurarão o
reflex de la realitat social i lingüística de Catalunya en la programació.
Tradução para os ingénuos: além do feixe de canais de televisão em castelhano, estes querem que os de titularitat autonòmica também o fagam. Como todo o mundo sabe, Televisión Española, Antena 3, Telecinco, Cuatro, LaSexta e algum canal mais que haverá por aí são famosos por emitir em línguas distintas do castelhano. Temos de reconhecer, porém, que TVE emite arredor de uma ou duas horas por dia em galego (imagino que também em catalão). Deve de ser um esforço ingente...

Querem eliminar as
subvencions als mitjans de comunicació privats», por erosionar «greument l'autonomia mediàtica i la seva capacitat de crítica al nacionalisme dominant a Catalunya.
Ponhamos as cousas claras: molesta mais que haja subvenções a meios privados ou que esses meios não questionem o nacionalismo catalão? Porque na Galiza essas subvenções servírom precisamente para ocultar descaradamente as desgraças dos governos de Fraga e contar-nos as múltiplas virtudes da nación espanhola, e não vim nenhum destes snobes a criticá-lo. Também eu penso que as subvenções a meios privados são uma trampa, porque provocam um grado de crítica nulo para poder continuar a recebê-las, mas não se pode argumentar o motivo de que não critiquem o “nacionalismo dominante na Catalunha”. Se são independentes, têm as suas opiniões, entre as que pode estar perfectamente o seu apoio à ideologia que for. Outra cousa distinta é que misturem notícias com opiniões, como fão certas emissoras que podem ser acusadas precisamente de nacionalistas espanhóis. E não recebem críticas dos Ciutadans.

Além do comentado até cá, o seu programa inclui pontos nos que falam de segurança, educação, desenvolvimento sustentável, acrescentam medidas económicas que deixam tudo como está e falam também contra a violência machista (denominada com o comum eufemismo de de género).

O que deduzimos deste programa eleitoral? Ciutadans está composto polo mesmo tipo de pessoas que antano podiam fazer parte das filas do Partido Comunista (quem não lembra o Piqué e a Pilar del Castillo, ambos hoje no Pepê), mas com um ponto de vista mais aburguesado. Ou seja, que são os snobes de sempre que não querem falar catalão por imposição. Os que ontem, pola proibição franquista, pediam falar catalão, hoje rejeitam a sua oficialidade e o seu dever de o conhecer ao mesmo nível que o castelhano.

Têm um programa que se centra mais em atacar todo o referente ao nacionalismo catalão, inçado de diversas medidas pseudo-progres, mas sem tocar a economia. E, já se sabe: quem não fala dalgo fai pensar que concorda. Do que se deduz que a economia é algo que não os molesta realmente. Curioso, dado que cada dia há mais pobres e a margem que separa os pobres e ricos é cada vez mais grande.

Ciutadans? Cidadãos? Não seria melhor pontualizar? Cidadãos acomodados? Ou melhor em castelhano: Ciudadanos acomodados: Ciudadanos pijos - Partido de la burguesía.

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