Guia de leitura para galegos não lusófonos
... ou que não se considerem tal. Se for este último caso, pensarão que este blogue está escrito num (im)perfeito português. Bem, está escrito em português, mas na medida em que um blogue português está escrito em galego, um andaluz ou venezuelano em castelão, um menorquim ou barcelonês em catalão...
Por que parece português?
Porque é. O português é a denominação internacional da língua criada no Noroeste da Península Ibérica, expandida cara ao Sul e Leste em diversos momentos históricos. Posteriormente, cruzou o Oceano até a América, a China, África... de mãos dos portugueses, daquela já um Estado independente. O português recebe, às vezes, diversos nomes que não se correspondem com a denominação internacional: galego, brasileiro, timorense, eunaviego, alentejano todas elas denominações de variantes particulares. O caso da variante galega tem política polo meio.
Um pouco de História
O Estado português atingiu a independência em 1128. As línguas faladas nas duas beiras do rio Minho eram idênticas, com os traços dialectais lógicos. A História da Galiza não ajudou os nobres da época que, em duas guerras fratricidas pola Coroa de Castela apoiárom sempre o bando perdedor. Esta traição foi paga com desterro, substituindo a nobreza autóctone por forânea, utentes de castelão. A partir desse momento, todos os documentos legais serão redigidos na língua dos castelãos. Dão começo os chamados Séculos Escuros, uma época especialmente ominosa da História da Galiza, sobretudo no que à língua atinge.
Neste momento começárom a misturar-se as duas línguas: castelão e português (ou galego, tanto tem). O povo não tinha acesso a educação nenhuma e, os poucos privilegiados que dispunham dela, faziam-no exclusivamente na língua dos seus vizinhos castelãos. O castelão converteu-se em língua do poder na Galiza.
A variante galega do português conseguiu sobreviver assim até o século XIX, no que tem lugar o movimento chamado Rexurdimento ou Ressurgimento. Diversos intelectuais conscientizados começam a fazer movimentos em prol do galego para dignificá-lo e elevar o seu status ao de língua culta, como o resto de línguas nacionais europeias. Posteriormente este movimento dará lugar ao chamado nacionalismo galego.
No século XX, os meios de comunicação previamente inexistentes fizêrom ainda mais simples a tarefa uniformizadora do Estado espanhol, já que publicidade, rotulação, rádio, imprensa e, posteriormente, televisão, estarão unicamente em castelão. Pode estar aqui o momento no que o português falado na Galiza se aproximou mais do castelão.
Galego e português
Na Galiza, além de castelão e português, é falado um conjunto de dialectos crioulos que recebe os nomes de castrapo ou portunhol, mistura de português e espanhol. Certas características do castelão fôrom introduzindo-se deste jeito em muitos dos dialectos galegos do português, sendo assimiladas de tal jeito que se reconhece oficialmente que fão parte do galego, embora sejam características próprias do castelão. Isto é assim com, por exemplo, grande parte dos fonemas, como pode ser a substituição do lateral palatal (representado por lh) polo fonema que em castelão representa o y e que caracteriza o chamado yeísmo, ou as versões semiabertas de o e e, em progressiva desaparição pola pronúncia neutra (quer dizer, castelã) das cidades e dos meios de comunicação; certas construções (vamos "a" comer por vamos comer, "de" não chegares a tempo por se não chegares a tempo); mesmo uma parte importante do vocabulário culto ou semiculto (pressupostos por orçamentos, benefício por lucro), por vezes patrimonial (naide por ninguém, adaptando-a da palavra nadie).
Aliás, existe na Galiza uma aversão das classes dominantes, utentes de castelão, à aproximação de Portugal por parte dos galegos. Vê-se como um perigo potencial, já que se identifica aproximação cultural ou linguística com política. Deste jeito, a pretensa unidade da Espanha, seguidora do modelo jacobinista pós-Revolução Francesa, ficaria em águas de bacalhau.
A isto há que acrescentar um medo imenso de diversos sectores galeguistas à perda de identidade que suporia para eles esse achegamento. Por isso, dentro dos movimentos culturais a prol do galego, existem também os defensores duma língua galega auto-identificada. Quer dizer, galego e português são, segundo estas teses, duas línguas diferentes, embora se poda falar dum tronco comum.
Previamente surgiram as teses reintegracionistas, que procuram o reconhecimento do galego como parte da lusofonia com todo o que isto supõe. Por exemplo: representação galega no âmbito linguístico, facilidades no comércio com Portugal (mesmo com o Brasil), intercâmbios de estudantes sem dificuldade ou, no aspecto da língua escrita, desaparição de traduções do galego ao português e vice-versa, podêndomos ter os galegos uma imensa biblioteca na nossa língua, cousa que hoje é impossível.
Características da ortografia reintegrada
Com respeito à ortografia espanhola (ou baseada na espanhola) que utiliza a RAG, um utente do português da Galiza pode perceber as seguintes diferenças:
Por que parece português?
Porque é. O português é a denominação internacional da língua criada no Noroeste da Península Ibérica, expandida cara ao Sul e Leste em diversos momentos históricos. Posteriormente, cruzou o Oceano até a América, a China, África... de mãos dos portugueses, daquela já um Estado independente. O português recebe, às vezes, diversos nomes que não se correspondem com a denominação internacional: galego, brasileiro, timorense, eunaviego, alentejano todas elas denominações de variantes particulares. O caso da variante galega tem política polo meio.
Um pouco de História
O Estado português atingiu a independência em 1128. As línguas faladas nas duas beiras do rio Minho eram idênticas, com os traços dialectais lógicos. A História da Galiza não ajudou os nobres da época que, em duas guerras fratricidas pola Coroa de Castela apoiárom sempre o bando perdedor. Esta traição foi paga com desterro, substituindo a nobreza autóctone por forânea, utentes de castelão. A partir desse momento, todos os documentos legais serão redigidos na língua dos castelãos. Dão começo os chamados Séculos Escuros, uma época especialmente ominosa da História da Galiza, sobretudo no que à língua atinge.
Neste momento começárom a misturar-se as duas línguas: castelão e português (ou galego, tanto tem). O povo não tinha acesso a educação nenhuma e, os poucos privilegiados que dispunham dela, faziam-no exclusivamente na língua dos seus vizinhos castelãos. O castelão converteu-se em língua do poder na Galiza.
A variante galega do português conseguiu sobreviver assim até o século XIX, no que tem lugar o movimento chamado Rexurdimento ou Ressurgimento. Diversos intelectuais conscientizados começam a fazer movimentos em prol do galego para dignificá-lo e elevar o seu status ao de língua culta, como o resto de línguas nacionais europeias. Posteriormente este movimento dará lugar ao chamado nacionalismo galego.
No século XX, os meios de comunicação previamente inexistentes fizêrom ainda mais simples a tarefa uniformizadora do Estado espanhol, já que publicidade, rotulação, rádio, imprensa e, posteriormente, televisão, estarão unicamente em castelão. Pode estar aqui o momento no que o português falado na Galiza se aproximou mais do castelão.
Galego e português
Na Galiza, além de castelão e português, é falado um conjunto de dialectos crioulos que recebe os nomes de castrapo ou portunhol, mistura de português e espanhol. Certas características do castelão fôrom introduzindo-se deste jeito em muitos dos dialectos galegos do português, sendo assimiladas de tal jeito que se reconhece oficialmente que fão parte do galego, embora sejam características próprias do castelão. Isto é assim com, por exemplo, grande parte dos fonemas, como pode ser a substituição do lateral palatal (representado por lh) polo fonema que em castelão representa o y e que caracteriza o chamado yeísmo, ou as versões semiabertas de o e e, em progressiva desaparição pola pronúncia neutra (quer dizer, castelã) das cidades e dos meios de comunicação; certas construções (vamos "a" comer por vamos comer, "de" não chegares a tempo por se não chegares a tempo); mesmo uma parte importante do vocabulário culto ou semiculto (pressupostos por orçamentos, benefício por lucro), por vezes patrimonial (naide por ninguém, adaptando-a da palavra nadie).
Aliás, existe na Galiza uma aversão das classes dominantes, utentes de castelão, à aproximação de Portugal por parte dos galegos. Vê-se como um perigo potencial, já que se identifica aproximação cultural ou linguística com política. Deste jeito, a pretensa unidade da Espanha, seguidora do modelo jacobinista pós-Revolução Francesa, ficaria em águas de bacalhau.
A isto há que acrescentar um medo imenso de diversos sectores galeguistas à perda de identidade que suporia para eles esse achegamento. Por isso, dentro dos movimentos culturais a prol do galego, existem também os defensores duma língua galega auto-identificada. Quer dizer, galego e português são, segundo estas teses, duas línguas diferentes, embora se poda falar dum tronco comum.
Previamente surgiram as teses reintegracionistas, que procuram o reconhecimento do galego como parte da lusofonia com todo o que isto supõe. Por exemplo: representação galega no âmbito linguístico, facilidades no comércio com Portugal (mesmo com o Brasil), intercâmbios de estudantes sem dificuldade ou, no aspecto da língua escrita, desaparição de traduções do galego ao português e vice-versa, podêndomos ter os galegos uma imensa biblioteca na nossa língua, cousa que hoje é impossível.
Características da ortografia reintegrada
Com respeito à ortografia espanhola (ou baseada na espanhola) que utiliza a RAG, um utente do português da Galiza pode perceber as seguintes diferenças:
- ç. Cê cedilhado (a cedilha é o sinal gráfico sob o c) utiliza-se seguido de a, o ou u, para lhe dar (na escrita etimológica ou histórica) o valor de «s» surdo (que tem na Galiza sesseante e que não impede a realização como «z» que tem nas outras áreas do país) [Dicionário e-Estraviz]. Este sinal gráfico entrou no galego polo Caminho de Santiago na época trovadoresca. Tem origem provençal. Ainda é conservado, por exemplo, em francês e catalão.
- ~. Til de nasalidade, sobre a ou o. Utilizado especialmente em terminações como -ão, -ã,-ães ou -ões.
- `. Acento grave, sobre a. Indica atonicidade na contracção de a (prep.) + a (artigo): Fomos à lareira. Assim existe diferença gráfica entre à (contracção), a (preposição ou artigo) e á (substantivo. Asa).
- ^. Acento circunflexo, indicativo de som fechado das vogais a, e, o. Tira o som agudo à vogal a (câmara).
- nh. Ene agá. Este dígrafo representa o fonema consonântico palatal nasal, o que em castelão é um enhe, ñ. Também de origem provençal.
- lh. Ele agá. Igualmente um dígrafo de origem provençal. Representa o fonema consonântico lateral palatal.
- ss. Esse duplo. Utilizado entre vogais em formas verbais do Presente de conjuntivo (cantasse, trouxesse), palavras como nosso, vossa, essa, isso, assunto, associação, etc. Tem uma pronúncia idêntica à do esse simples, polo que não deveria causar dificuldade.
- y. Ípsilon. Grafema de origem grega, utilizado como caractere especial para palavras estrangeiras.
- k. Cá ou capa. O mesmo que o anterior.
- w. Uvê duplo, vê duplo, duplo vê, etc. (no resto da lusofonia acho que dáblio). Emprega-se apenas nalgumas palavras derivadas ou importadas do inglês, do alemão ou doutro idioma.
- j. Jota. Utiliza-se para representar o fonema fricativo palatal surdo diante de a, o e u. Como excepções estão os ditongos e algumas palavras. No resto da lusofonia representa um fonema sonoro. Exemplos: já, janela, jota, judeu.
- Utilização do g diante de e e i. Esta ortografia conserva, neste aspecto, a etimologia das palavras: geografia, gíria, geonlho, ginásio.
- Acentuação de palavras proparoxítonas ou esdrúxulas que no galego RAG são grafadas como paroxítonas ou graves: história, paciência. Isto é assim porque a separação de fonemas que seguem as normas oficiais considera ditongos as combinações ia, io, ua, uo ou mesmo ie, ue. Se os consideramos hiatos, como de facto pronunciam uma grande parte de galegos (especialmente no âmbito rural), devemos grafá-los como tais.
- A maior parte do léxico que emprego está escolhido a propósito para, sem deixar de ter preferência por formas familiares para mim e para os galegos, aproximar o texto a um código compreensível por qualquer lusófono.





1 comentário(s):
Obrigado por Blog intiresny
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