Segunda-feira, Dezembro 25, 2006

Guia de leitura para lusófonos não galegos

Pudem saber estes dias que de quando em vez cai algum lusófono neste blogue, cousa que me alegra muito. O facto fizo-me pensar em pôr um breve guia com (especialmente) formas verbais que, gírias aparte, no galego são distintas do português doutras terras. Lá vai:

Poder:
podo - posso
pudem - pude
pudo - pôde

Fazer:
fago - faço
fás - fazes
fai- faz
fão - fazem
fizem/figem - fiz
fizo/fijo - fez

Dizer:
dis - dizes
di - diz
dixem - disse (eu)
dixo - disse (ele)
(O resto de formas com dix- têm a correspondência em diss-. Não concordo muito com esse jeito de grafar estas últimas formas dado que, assim escritas, pode-se pensar que se pronunciam /'diksem/ e /'dikso/, quando soam mais parecidas ao que se grafaria como "digem" e "dijo". O fonema que representa esse xis seria como o de caixa e seixo)

Pôr:
pugem - pôs (eu)
pujo - pôs (ele)
pugemos - pusemos
pugestes - pusestes
(O resto de formas com pug- têm a sua equivalência em pus-)

Querer:
quigem - quis (eu)
quijo - quis (ele)
(O resto de formas analogamente a pôr)

Ter/Estar:
[es]tivo - [es]teve

Ser:
são (eu) - sou
são (eles) - são
fum - fui

Ver, Ler, etc:
vem - vêem

Ir:
vás - vais
fum - fui
vaia - vá
vaias - vás
vaiamos - vamos
vaiades - vades
vaiam - vão (Pres. conjuntivo)

Vir:
vens/vés - vens
vinheste - vieste
véu - veio
vinhemos - viemos
vinhestes - viestes
(Analogamente vinh- por vi- excepto o Pretérito Imperfeito de indicativo)

Pedir:
pedo - peço
peda - peça
(Similarmente o resto de tempos verbais com ped- por peç-)

Perder:
perdo - perco
perda - perca
perdamos - percamos
perdam - percam

Os galegos não utilizamos tempos compostos. Apenas como perífrases, entre as que se destaca ter+particípio (perfectivo-reiterativa), com o significado de existência dum hábito prévio. Exemplo:
Já tenho visto esse homem mais vezes
tem o significado de não ser a primeira nem a segunda vez que vejo esse homem, mas ser habitual para mim vê-lo. Assim, os galegos diríamos algo como
O homem havia chegado ao seu final
utilizando o Antepretérito (Pretérito mais-que-perfeito simples), ficando assim:
O homem chegara ao seu final.

Contempla-se a existência do Gerúndio pessoal de 1ª pessoa do plural: cantândomos.

Muitos galegos utilizamos o pronome átono che com a função de Objecto/Complemento Indirecto:
Rompim-che um braço (Rompim [um braço (OD)] [a ti (OI)])
A chuva molhou-te (A chuva molhou [a ti (OD)])

A grande maioria dos galegos rematam o Pretérito (ou Pret. Perf. Simples) com a terminação -che, ficando comiche, cantache, que no resto da lusofonia se di comiste, cantaste ou, mesmo, com outra pessoa gramatical: comeu, cantou (você).

Do mesmo jeito, é maioritário o uso da terminação -des para o que se costuma usar -is: comedes por comeis, cantaríades por cantaríeis, etc. Note-se a diferença no Futuro do pretérito (simples) de cantaríais (galega) e cantaríeis.

Aliás, as formas do Pretérito da 3ª pessoa do plural rematam-se e -árom, -êrom e -írom, enquanto no resto da lusofonia é utilizada a mesma forma que no Antepretérito. Por exemplo: cantárom por cantaram, comêrom por comeram, partírom por partiram.

Também existe uma nasalidade (-m) no final de muitas formas verbais: comim por comi, trouxem, por trouxe, que não deveriam causar dificuldade num leitor não galego.

A ligação entre um verbo e um pronome leva muitas vezes um -n- depois duma forma verbal com nasalidade ou um ditongo: comim-no, comprei-na.

Existe um alomorfo do advérbio muito: mui. Utiliza-se acompanhando um adjectivo: A casa é mui(to) grande.

Os galegos ainda conservamos a denominação pagã dos dias da semana perante a cristã, imperante no resto da lusofonia:
Luns - Segunda-feira
Martes - Terça-feira
Mércores - Quarta-feira
Joves - Quinta-feira
Venres - Sexta-feira
São substantivos masculinos; portanto o Luns, no Luns... A diferença do que se pudesse pensar, não são palavras adaptadas do castelhano, embora a sua conservação seja por influxo directo desta língua. A realidade é que a maior parte dos falantes não usa nenhuma das duas formas, optando polas puramente castelhanas.

Também utilizamos as palavras tradicionais para as comidas ao longo do dia: almorço - pequeno almoço, jantar - almoço, ceia - jantar.

A seguir vão uma série de palavras soltas. Algumas são muito simples, mas ponho-as por se houver algum problema e para remarcar as absurdas diferenças existentes. Lá vão:
pola/o(s) - pela/o(s)
dous - dois (masculino)
duas - dois (feminino)
cousa - coisa
canão - canhão
pena - penha

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