
Há uns meses fum com uma pessoa muito especial ver este filme:
Match Point (em inglês
Ponto final, na gíria do ténis). Ela gosta muito de
Woody Allen, quer como director, quer como actor. E foi que me pegou a sua teima por certo senhor baixinho, feio e paranoico. Desde que vim o primeiro filme, fiquei certamente fascinado por ele. É curioso como comenta os medos e teimas dos seres humanos sem pudor algum.
Ontem, topei-no num quiosque de revistas. Pensei que uns pouco
ourinhos por um filme do Allen bem gastos estão. A foto é da capa da versão de quiosque.
O argumento do filme pode resumir-se em que, se chegaste até ao lugar onde estás, não foi de jeito nenhum polo teu esforço, polo teu talento, pola tua criatividade. Foi, unicamente, pola tua sorte. Sei que há muita gente que não estará de acordo com esta visão da vida, mas é preciso contemplá-lo deste jeito: uma pessoa, por muito talento que tiver, depende sempre de que haja uma outra que a valore. Quer dizer, Einstein nunca teria sido nada se não tivesse havido alguém para o valorar. Portanto, se chegou ao lugar na História que hoje ocupa foi, além (obviamente) da sua grandeza como físico, da sua sorte. A sorte está em toda a parte.

Porém, a minha particular visão
atomista do mundo fai com eu plantejar isso que Allen chama
sorte como a manifesta incapacidade do ser humano para controlar tudo. Ou seja, as condições para um sucesso ocorrer estão aí. O problema é podermos manipulá-las segundo os nossos interesses. Quando Allen di através duma voz em
off nos primeiros segundos do filme que, às vezes, no ténis, a bola dá um golpe na rede e, por uns segundos, fica no ar entre os dous campos, fala da
sorte como causa e razão de a bola cair num campo ou noutro, de ganhar ou perder.
Essa sorte não é mais que o desconhecimento de certas leis que regem o mundo, da física. Associar este feixe de razões desconhecidas a
algo, causa e efeito dos nossos logros e fracassos é, segundo o meu ponto de vista, tentar sempre culpar "outros" do que nos ocorre. Do mesmo jeito é que se fala dum ser superior (ou vários, depende do lugar) para explicar os acontecimentos da vida. Culpa-se este ser superior do bom e do mau. Como se não existisse o
motu proprio das pessoas. Como se nom fossem responsáveis dos seus actos.

O facto de dependermos em muitos casos disso chamado
sorte,
deus,
estrela,
anjo guardião... é como pretender que a responsabilidade não existe. Não existe, portanto, a relação
causa-efeito.
Também se pode ver como que a sorte é algo criado por cada um. Cada pessoa fai como um imã que atrai as cousas boas ou más, em função dos seus actos, do seu jeito de agir e reagir, do seu modo de ver a vida. Uma pessoa que é violenta tem muitas possibilidades de levar uma hóstia numa liorta e acabar mal.
Ou pode que a sorte seja um invento. Se é que a sorte não existe, teremos então de nos esforçar para criarmos o nosso futuro. Sem destinos pré-fabricados por um ente imaterial, do que nunca teremos provas. Sem estrelas, boas ou más. Sem anjos guardiões. Sem sorte. Com coragem e força. Com interés e perseverância. Para os mais
castiços: com colhões.