Quinta-feira, Maio 17, 2007

Estão tolos estes... galegos??

Hoje toca desbardalhar da telegaita. Para os que não o saibam, este infinitivo tão curioso é aproximadamente o mesmo que deitar merda sobre algo. Pois isso toca.

Pugem o televisor há uns minutos (bastantes, porque tentei ligar para a internet e assim escrever isto durante um bom cacho. Sem êxito, obviamente). Surpreendeu-me que o programa na telegaita não fosse da maravilhosa vida do rural galego, ou de pandeiretas, ou gaitas (por algo a chamamos telegaita. Muita rebuznância neste parágrafo). Em troques, via-se uma mulher de rasgos orientais falando como podia o castelão, com todas as suas palavras bem postas em castrapo a modo de legendas. Foi engraçado polo particular jeito de falar dos japoneses as línguas alheias. Não pronunciam normalmente o L, daí que recorram a formas auctóctones do japonês, bastante pobre foneticamente. Por exemplo, a palavra "cliente" foi pronunciada como kuriente (/ku-ri-'e-n-te/. Ou algo disso).

Entendo que se deve ajudar o espectador para poder compreender perfeitamente as suas palavras com as legendas. Não é isso precisamente o motivo de eu estar aqui a deitar merda a modo de letras. O programa falava do contraste entre a vida noutros países (noutros mundos, quase) e a que temos na Galiza. A mulher japonesa mora em Compostela e, intercalando cenas da sua vida quotidiana, falava à câmara da falta que supõe não ter à sua disposição algo similar aos banhos japoneses onde, para além de se limpar, as famílias têm um método de comunicação inexistente no nosso País. Muito bem. O melhor método de observar uma cultura é polos olhos dum estrangeiro.

A seguir saiu um homem que veu do Uruguai. Falou dos bares galegos, impressionado polo excessivo número deles. E, como o homem fala habitualmente castelão, os responsáveis do programa pensárom que era inútil pôr legendas. A seguir, uma mulher vinda da Alemanha. O mesmo (que me expliquem por quê uma alemã não leva legendas a uma japonesa leva). Depois, o uruguaio mais uma vez.

Tudo me parecia dentro da dinâmica habitual da telegaita no tocante às legendas: os que falam castelão são sempre totalmente inteligíveis. Sem discussão (esqueçam a japonesa, claro). Então, fala à câmara um rapaz de Cabo Verde e lá se fodeu a cousa. Falando um português totalmente inteligível, não assim opinárom os telegaiteiros, e pugêrom umas feias legendas que estragárom totalmente as palavras do rapaz.

Em que punheteiro país vivemos? Como é possível continuar a fazer festa por escritores mortos enquanto não se respeita a nossa língua no principal meio de comunicação audiovisual na Galiza? Para que servem os Correlínguas* uma vez por ano se o resto o galego morre? O que é que celebramos no Dia das Letras? Que o galego vive? Ou que tocam campãs fúnebres?

Espero que dentro de cinquenta anos fique alguém na Galiza capaz de entender as minhas palavras. Isso significará que ainda segue vivo.


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*Correlíngua. Diz-se de dúzias de rapazes caminhando por uma cidade qual bezerros promocionando o galego com os professores enquanto falam castelão. Humor galego. Estrangeiros abstenham-se de o compreender.

1 comentário(s):

Fer disse...

Bem, já nom tenho que fazer o umha entrada no blog sobre o mesmo tema :D

Conste que nessa reportagem da TVG legendavam o que dicia o alcalde sirio do PP (Em castelhano-de-castilha).