Domingo, Fevereiro 04, 2007

Legislação Universal?

Escrevo este artigo para denunciar a grande hipocrisia que impera na sociedade espanhola, especialmente no âmbito da política.

Na televisão da Espanha podem ver-se estes dias comentários de mil e um palhaços a opinar sobre a situação particular de Iñaki de Juana Chaos. Este homem foi acusado, julgado e condenado por vários assassinatos relacionados com o terrorismo da ETA em 1987 e cumpriu a sua condena em diversos cárceres espanhóis. Até cá tudo mais ou menos previsível: um senhor comete uns assassinatos, demonstra-se e, portanto, aplica-se um castigo associado a esse crime, neste caso tantos anos de cárcere. Quando o período de confinamento rematasse, este senhor teria de sair à rua, como qualquer delinquente que pague por um delito.

O problema vem quando certas pessoas que não compreendem o conceito "igualdade perante a lei" começam a se queixar polo final da pena e, argúcias legais mediante, argumentam que este senhor merece outros tantos anos no caldeiro por escrever dous artigos num periódico basco, alegando que estes fão apologia do terrorismo. Não estou certo de isso ser correcto mas, embora assim fosse, não entra numa mente racional castigar com mais de dez anos de cárcere as palavras duma pessoa, por muito violentas, xenófobas, racistas ou apologistas de qualquer ideia detestável que estas forem. Certo é que as palavras têm o seu peso. Porém, penso que é uma pena totalmente desproporcionada.

A história tem, todavia, partes mais surpreendentes. De Juana declarou-se em greve/folga de fome há dous ou três meses, começando a ser alimentado artificialmente e contra a sua vontade em Dezembro passado. E parece ser que a sua saúde, como é natural, começou a se ressentir. Perante esta situação, a Audiência Nacional espanhola tinha de decidir o quê faziam com ele: mantê-lo vigiado na casa ou ordenar a sua volta ao cárcere - neste caso permaneceria no Hospital no que está agora até ao final do seu protesto. Os encarregados do seu caso eram quatro juízes, três deles de tendência... poderíamos dizer... progressista. Aqui vem o bom: novamente argúcias legais mediante, conseguem que a votação do assunto se faga pola Audiência na sua totalidade. Isto não teria maior importância se não fosse improcedente e com fins determinados, já que a maioria da Audiência foi nomeada em tempos do PP (mistura de ultradireita, classe acomodada e milhões de pessoas humildes ligadas a esse precioso espectáculo chamado suicídio colectivo). Esta maioria amostra uma clara tendência conservadora, pregando-se às directrizes do partido antes nomeado. Portanto, que a totalidade da Audiência decidisse neste assunto era importante para manter esse senhor no cárcere, embora tenha cumprido a sua pena segundo a legislação actual.

Não é acaso um preso como qualquer outro? Alguns dirão que não, que os casos de terrorismo são distintos. Mas, então é que este senhor está a ter problemas porque a sua violência não é de qualquer tipo, mas com conteúdo político. Do que se deduz que no Estado espanhol hoje há presos por motivos políticos. Não mudou nada desde que ao tio Paco lhe deu por finar. É que chamam democracia a qualquer merda.

Tertúlias políticas na Espanha

Na TVE1, o primeiro canal criado na Espanha, têm um programa nas manhãs que conta com uma apresentadora e vários contertúlios. O objectivo destes últimos é dar a aparência de terem um debate com diversidade de opiniões, combatendo argumentos com mais argumentos... mas é tudo uma máscara que agacha um particular jeito de pensar, com algum pequeno matiz.

O outro dia, tivêrom a gentileza de convidar o actual Presidente da Junta da Galiza, maese Tourinho (cai-lhe melhor Torito). Surpreendeu-me por ele tentar, polo menos, aparentar que a sua presença no programa não fai parte da contínua campanha que mantêm os políticos para se enchirem as sacas de votos. Por uma vez não foi tão descarada essa assumida intenção.

Porém, não tudo pode ser assim tão perfeito. Os contertúlios, que até esse momento também davam a falsa sensação de representarem diversas correntes de pensamento existentes na rua, cometêrom o pecado de tirarem as máscaras. Um deles não suportou essa curiosidade morbosa que todo ser humano tem no interior e fizo ao Torito a seguinte pergunta: E quê tal é isso de ter nacionalistas no governo? O que, dado o tom no que se formulou a pergunta e as caras de expectação de todos os presentes, bem podia ter a sua equivalência noutro contexto a: E quê tal é isso de foder polo cu?

Estou muito farto de os não-nacionalistas espanhóis - se isso realmente existe - tratarem os que sim são - nacionalistas, que não espanhóis - com essa condescendência que os fai crer-se com a verdade, como se os que vem uma nação que não é aquela com a que eles se identificam fossem pobres ânimas desamparadas, ignorantes, paletos, que não podem perceber a verdade verdadeira, feio pleonasmo do que unicamente eles são possuidores.

No meu particular ideário existe a visão de que a Galiza deve ter um regime político que garanta os direitos dos galegos como indivíduos e dos mesmos como povo. Se esse regime não os garante, tentemos cambiá-lo para isso ocorrer. Se, mesmo assim, topamos com uma oposição férrea a atingirmos esses direitos, podemos falar então doutras vias, por exemplo a independência. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência veria que uma parte de mim reconhece um povo ou uma nação com a que se identifica - alguns chamariam-me nacionalista por isso - e, porém, outra está aberta a qualquer tipo de regime político, não necessariamente a via independentista e muito menos a intransigência - alguns chamariam-me não nacionalista. Portanto, que venham estes sisudos contar-me o quê tem de mau, peculiar ou notável ter nacionalistas no governo.

E será que o problema têm-no eles que, na sua cerração mental identificam tudo aquilo que não for Espanha e espanholismo com narcisismo, chauvinismo, etnocentrismo e um feixe de ismos que não querem nem ver? Por que é que nas únicas manifestações onde se vem bandeiras espanholas constitucionais são aquelas convocadas e apoiadas por organizações e partidos de extrema direita?

O que vinha bem ao panorama político de Madrid seria um feixe de partidos nacionalistas com claras ideias de uma Espanha federal, mesmo confederal. A ver quem é chauvinista então.