Sábado, Agosto 18, 2007

As três vias do reintegracionismo

Há tempo que tenho de argumentar a amigos, colegas e interessados em geral os porquês de me fazer reintegracionista, de considerar a fala de aquém e de além-Minho como parte da mesma língua e de escrever em galego com a ortografia de Portugal (com matizes, claro). Há também um tempinho que pensei em escrever um texto mais ou menos longo onde explicar a minha teoria para ser reintegracionista, ora não haja um único motivo nem dogma para chegar às mesmas conclusões. Chamo isto (num excesso de originalidade pola minha parte) as três vias do reintegracionismo galego.


Primeira via

Quantas pessoas com anseios de pertencer a um grupo dêrom com os ossos em teorias de passado mítico e heróico? O nacionalismo galego está inçado nalgumas partes destas teorias, falando num passado celta que derivaria na actual cultura galega. Também se fala nos suevos e no Galliciense Regnum, o Reino da Galiza, para nos dar certos ares de superioridade cultural. Embora opine que isso é um erro, sempre se pode tomar a História como é e assumi-la sem pretensões de tipo nenhum. E, no caso da Galiza, historiadores como Anselmo Lopes Carreira começam a publicar ensaios onde nos contam como é que foi realmente o Reino galego, distinto dessa merdinha no noroeste peninsular que põem nos livros de História do sistema educativo, sospeitosamente parecida à actual autonomia. Nesse mitificado Reino surgiu, além da língua galegoportuguesa, um condado com identidade própria, Portucale, que se converteu posteriormente num Reino independente: Portugal. É em Portugal que a nossa língua floresceu sem as dificuldades do centralismo castelão, estendendo-se polo mundo (por vias imperialistas, não obstante) e convertendo-se em língua universal da Humanidade.

Apelando a este passado comum, podemos argumentar que, já que uma vez o galego e o português fôrom a mesma língua, ainda seguem a ser a mesma língua. Esta seria uma forma de chegar ao reintegracionismo mediante um passado semi-mítico, quase romântico: voltarmos a um status prévio, muito anterior ao actual, cujas características queremos recuperar.


Segunda via

Analisando textos do galegoportuguês medieval em que, lembremos, Afonso IX da Galiza -ou X de Castela, para os oficialistas- escreveu as suas Cantigas, podemos ver similitudes claríssimas entre o actual português padrão e também entre o castrapo normativo. O tronco comum é claro. Mas, se por acaso tentarmos analisar morfossintacticamente uma oração ou frase escrita em português padrão e a sua correspondente adaptação ao castrapo normativo, toparemos que a maior parte das diferenças serão ortográficas. Eis um exemplo:
A erva do jardim não deixava ver no chão as folhas caídas do carvalho e da azinheira.
A herba do xardín non deixaba ver no chan/chao as follas caídas do carballo e da aciñeira.
La hierba del jardín no dejaba ver en el suelo las hojas caídas del roble y de la encina.

O exemplo conta, aliás, com a correspondente tradução ao castelão para assim poder ver perfeitamente as profundas diferenças entre as duas primeiras frases e a última, além da sospeitosa semelhança ortográfica entre a segunda e a terceira.

Algumas diferenças que existem entre galego e português ficam consideradas dentro do normal entre dialectos da mesma língua. Assim, podemos topar uma frase no dialecto chileno do castelão e a sua tradução ao dialecto do centro peninsular:
El jueves se corre la polla.
El jueves se celebra el sorteo de la lotería.
É notável o câmbio de significado se um castelão lê a primeira frase em troques de ler a segunda (correrse é a gíria castelã para ejacular e polla é a gíria do pênis, caralho). Porém, seguem a ser a mesma língua. Outro exemplo típico pode ser o do dialecto argentino e a sua adaptação ao da península:
Che, sos un boludo, pensáte lo de esta noche, que nos vamos de joda después de laburar.
Tío/Colega, eres un gilipollas, piénsate lo de esta noche, que nos vamos de fiesta después de trabajar.
Aqui podemos ver incluso um câmbio nas formas verbais (pensá-piensa, sos-eres), algo que sempre se argumenta em contra da unidade galegoportuguesa. Também se vê uma variação do significado dalguns termos (joda é a gíria de festa, enquanto na península é uma variação do verbo joder, gíria de molestar ou praticar o acto sexual, foder). Mais um exemplo:
Agarra/Agarrá las llaves del auto.
Coge las llaves del coche.
Novamente temos uma frase que, lida por um falante doutro dialecto, tem mesmo conotações de vulgaridade (coger é a gíria de praticar o acto sexual, foder, em muitos países de Hispanoamérica).

Por outra banda, está a divergência entre alguns fonemas utilizados no resto da lusofonia e os utilizados na Galiza. Para isto também é possível utilizar os critérios empregados no sistema da língua castelã, dado que o dialecto propriamente castelão é ceceante, com um fonema parecido ao /th/ de thought (palavra inglesa), enquanto praticamente a totalidade do resto de falantes são sesseantes, isto é, não distinguem na sua fala entre s e z ou c. Também o castelão carece de sibilantes sonoras do estilo do /z/ de nazione (palavra italiana), enquanto muitos falantes de Hispanoamérica e mesmo de Andaluzia e a Estremadura espanhola utilizam este fonema como algo natural. Isso sem contar os múltiplos sons que os falantes dão às grafias y e ll: desde a forma uruguaio-argentina do famoso yo (que soa parecido com ) ao que se utiliza por falantes cântabros (que soa quiçás como ). Sem esquecermos a diferença entre b e v, inexistente no dialecto castelão, porém muito marcada noutros.

Portanto, demonstrada a existência de formas verbais ou léxico localizados geograficamente na mesma língua castelã, como é que um conhecedor desta língua, como pode ser qualquer galego escolarizado ultimamente, pode contestar a unidade galegoportuguesa? Por motivos puramente políticos.

Chegámos, então, ao reintegracionismo utilizando dous critérios pseudo-filológicos (eu não são filólogo, uma pessoa com esses conhecimentos poderá dar uma explicação mais rigorosa): observando que as diferenças entre português e castrapo são basicamente estéticas, devidas à ortografia, e comparando a classificação entre língua e dialecto do sistema mais próximo do galegoportuguês (o castelão), observando a sua aplicação. Que dá como resultado que galego e português são dous dialectos da mesma língua.


Terceira via

Quando nenhum dos outros jeitos nos convence (nem romântico nem científico-filológico), ainda nos resta uma outra visão da língua: o pragmatismo. Um falante de galego terá muitíssimas dificuldades para ler os clássicos universais adaptados ao castrapo. As traduções são poucas e não especialmente boas. Também não é doado toparmos bibliografia técnica ou específica dum ramo da ciência ou da tecnologia, porque as editoras não vem a sua saída ao mundo mercantil segundo a visão capitalista da literatura.

O que pode fazer um galego? Muitos costumam capitular e optar pola bibliografia em castelão, e todos sabemos que praticamente todos os clássicos universais da literatura, se não todos, têm uma tradução a essa língua. Do mesmo jeito, é relativamente fácil topar um livro técnico, escrito originalmente em inglês, na sua edição castelã.

Mas, e se pudêssemos ter a suficiente capacidade para não termos de recorrer a uma língua totalmente distinta da nossa? Mesmo se opinássemos que galego e português não são a mesma língua, o seu parecido é inegável por muito obcecados que pudêssemos estar. O problema é a falta de costume de os galegos lermos em português padrão. E escrevermos, obviamente.

Tendo dominada a leitura do padrão de Lisboa, podemos aceder a toda a literatura universal já traduzida e, mesmo, às edições originais da literatura de Portugal e os países lusófonos da Ásia e da África. E, com um pequeno esforço, poderíamos compreender sem problemas a ortografia e o léxico próprios do Brasil.

Um galego, polo facto de nascer no Estado espanhol, tem a obriga de aprender a língua castelã. Os galegos, por graça da História, podemos dispor de duas línguas universais para nos comunicar com o resto do mundo: castelão e português (ou galegoportuguês). E isso sem contarmos com que nas escolas sempre se ensina uma língua estrangeira (mesmo mais estrangeira do que o castelão), quer inglês, quer francês ou alguma outra. Portanto, um galego que aprenda desde a escola português, castelão e, posteriormente, inglês, tem à sua disposição três línguas universais. Duvido muito que, por exemplo, os catalães ou os bascos tenham tanta sorte como nós (basicamente porque o português é falado, apenas no Brasil, por mais de cento e oitenta milhões de pessoas, sem falar na distribuição geográfica, em quatro continentes). O português, embora não seja um dado conhecido, é a segunda língua da internet em número de sítios web, após o inglês. É também a terceira língua mais estendida do mundo, após inglês e castelão, e a quinta em número de falantes. Ou seja, que o pretenso argumento de que o galego não tem saídas pode ser bem matizado segundo a minha visão pragmática.

Em oposição com todo o anterior, o castrapo quase nem é reconhecido oficialmente, produzindo-se situações como a de um deputado galego no parlamento europeu não poder fazer uma intervenção sem avisar várias semanas antes. Isto, obviamente, não acontece com o português, porque a União Europeia conta com vários tradutores e intérpretes fixos. Nem falar no castelão ou o inglês. Daí que suponha muito mais produtivo para o sistema educativo galego e para os alunos deixar o actual castrapo e introduzir no ensino o padrão português. Isso sim, sem esquecermos que falamos português da Galiza ou galego, não lisboeta ou brasileiro.

E, finalmente, chegámos ao reintegracionismo pola via da utilidade, do pragmatismo, sem apelarmos a passados míticos ou argumentações filológicas. Simples: reintegracionismo é futuro, é trabalho, é acesso à cultura; isolacionismo é chauvinismo, é cerração mental, é a morte da língua nas litúrgias da Junta da Galiza.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

Castelão e a volta à Pátria

Continuando com o tema do artigo anterior, gostaria de explicar alguma cousinha que se dá por sabida no vídeo, mas que supõe uma peça fundamental para entendermos as circunstâncias daquilo que vemos.

Castelão dixera no seu testamento político, Sempre em Galiza, que o seu desejo era voltar à sua Terra, à sua Pátria, unicamente quando ela for livre. Livre para decidir o seu futuro, para ser dona e senhora da sua autodeterminação. Pensemos um minutinho no panorama sócio-político do ano 1984:
  • O general Franco finou há apenas cinco anos, tempo insuficiente para cambiar os costumes, quer da população com anseios de revolução, quer da Polícia (los mierdas, na gíria castelã da época) com modos próprios ainda da ditadura.
  • O governo de Madrid conta com um partido socialista com uma visão extremadamente centralista do Estado. Por se não fora suficiente, a imagem da Espanha no exterior será novamente identificada com os touros e a cultura andaluza.
  • O governo do novo parlamentinho está em mãos da coaligação Alianza Popular, hoje Partido Popular. Para quem não souber, o PP é um partido centralista espanhol, que considera um prémio facilitar o acesso a um posto em Madrid e um exílio fazer política na Galiza. Em troques de servir de instrumento da vontade popular, o parlamentinho está a ser continuadora da mentalidade franquista.
Com estes antecedentes, e sabendo que Castelão sempre considerara como os inimigos os "Fragas" do mundo, é um chisco chocante que seja o próprio governo antinacionalista que tome a iniciativa de trazer os restos do herói galego. Pode ser interpretado, como de facto se fizo, como um jeito de manipular a memória do finado para utilizar a sua imagem de ícone nacional e tirar proveito. Ainda direi mais, esse pretenso galeguismo do PP está integramente baseado na manipulação de figuras históricas do nacionalismo.

Dado que a Galiza, em 1984 e hoje, não contava com os meios para exercer a sua autodeterminação plena, uma parte do galeguismo interpretou a repatriação dos restos de dom Daniel como uma traição. Deste jeito compreendem-se melhor os berros de "A Castelão não se traiciona" [ou, mais jeitoso, "O Castelão não se trai" ] e "Galiza ceive, poder popular" da gente que foi receber esta figura mítica do galeguismo.

Ainda se considera mais traição a utilização da sua figura, da figura dum autodeterminista e reintegracionista como ele, para a criação das Medallas Castelao por parte dum governo que nem reconhece a existência da nossa nação nem a do chamado Estado colonial. É um insulto à memória.

A voz em off, de todos os jeitos, deixa pouco espaço a mais explicações citando o Novoneyra e o próprio Castelão. O certo é que arrepia os cabelos, estremece, turba extraordinariamente, ouvir o clamor, quer da gente lá reunida, quer da periodista quando di: Quando Risco era alguém [...] ensinou a todos que Galiza é uma nação.

Terça-feira, Agosto 07, 2007

Os restos de Castelão

Bom dia para quem se tomar a moléstia de ler estas linhas. Bem certo é que levo meses sem escrever, mas a causa é uma mistura de exames, estudo e falta de ideias. Por isso, hoje serei um pouco chafalheiro e enchirei parte do espaço desta entrada com um vídeo, que comentarei noutro momento: