As três vias do reintegracionismo
Há tempo que tenho de argumentar a amigos, colegas e interessados em geral os porquês de me fazer reintegracionista, de considerar a fala de aquém e de além-Minho como parte da mesma língua e de escrever em galego com a ortografia de Portugal (com matizes, claro). Há também um tempinho que pensei em escrever um texto mais ou menos longo onde explicar a minha teoria para ser reintegracionista, ora não haja um único motivo nem dogma para chegar às mesmas conclusões. Chamo isto (num excesso de originalidade pola minha parte) as três vias do reintegracionismo galego.Primeira via
Quantas pessoas com anseios de pertencer a um grupo dêrom com os ossos em teorias de passado mítico e heróico? O nacionalismo galego está inçado nalgumas partes destas teorias, falando num passado celta que derivaria na actual cultura galega. Também se fala nos suevos e no Galliciense Regnum, o Reino da Galiza, para nos dar certos ares de superioridade cultural. Embora opine que isso é um erro, sempre se pode tomar a História como é e assumi-la sem pretensões de tipo nenhum. E, no caso da Galiza, historiadores como Anselmo Lopes Carreira começam a publicar ensaios onde nos contam como é que foi realmente o Reino galego, distinto dessa merdinha no noroeste peninsular que põem nos livros de História do sistema educativo, sospeitosamente parecida à actual autonomia. Nesse mitificado Reino surgiu, além da língua galegoportuguesa, um condado com identidade própria, Portucale, que se converteu posteriormente num Reino independente: Portugal. É em Portugal que a nossa língua floresceu sem as dificuldades do centralismo castelão, estendendo-se polo mundo (por vias imperialistas, não obstante) e convertendo-se em língua universal da Humanidade.
Apelando a este passado comum, podemos argumentar que, já que uma vez o galego e o português fôrom a mesma língua, ainda seguem a ser a mesma língua. Esta seria uma forma de chegar ao reintegracionismo mediante um passado semi-mítico, quase romântico: voltarmos a um status prévio, muito anterior ao actual, cujas características queremos recuperar.
Segunda via
Analisando textos do galegoportuguês medieval em que, lembremos, Afonso IX da Galiza -ou X de Castela, para os oficialistas- escreveu as suas Cantigas, podemos ver similitudes claríssimas entre o actual português padrão e também entre o castrapo normativo. O tronco comum é claro. Mas, se por acaso tentarmos analisar morfossintacticamente uma oração ou frase escrita em português padrão e a sua correspondente adaptação ao castrapo normativo, toparemos que a maior parte das diferenças serão ortográficas. Eis um exemplo:
A erva do jardim não deixava ver no chão as folhas caídas do carvalho e da azinheira.O exemplo conta, aliás, com a correspondente tradução ao castelão para assim poder ver perfeitamente as profundas diferenças entre as duas primeiras frases e a última, além da sospeitosa semelhança ortográfica entre a segunda e a terceira.
A herba do xardín non deixaba ver no chan/chao as follas caídas do carballo e da aciñeira.
La hierba del jardín no dejaba ver en el suelo las hojas caídas del roble y de la encina.
Algumas diferenças que existem entre galego e português ficam consideradas dentro do normal entre dialectos da mesma língua. Assim, podemos topar uma frase no dialecto chileno do castelão e a sua tradução ao dialecto do centro peninsular:
El jueves se corre la polla.É notável o câmbio de significado se um castelão lê a primeira frase em troques de ler a segunda (correrse é a gíria castelã para ejacular e polla é a gíria do pênis, caralho). Porém, seguem a ser a mesma língua. Outro exemplo típico pode ser o do dialecto argentino e a sua adaptação ao da península:
El jueves se celebra el sorteo de la lotería.
Che, sos un boludo, pensáte lo de esta noche, que nos vamos de joda después de laburar.Aqui podemos ver incluso um câmbio nas formas verbais (pensá-piensa, sos-eres), algo que sempre se argumenta em contra da unidade galegoportuguesa. Também se vê uma variação do significado dalguns termos (joda é a gíria de festa, enquanto na península é uma variação do verbo joder, gíria de molestar ou praticar o acto sexual, foder). Mais um exemplo:
Tío/Colega, eres un gilipollas, piénsate lo de esta noche, que nos vamos de fiesta después de trabajar.
Agarra/Agarrá las llaves del auto.Novamente temos uma frase que, lida por um falante doutro dialecto, tem mesmo conotações de vulgaridade (coger é a gíria de praticar o acto sexual, foder, em muitos países de Hispanoamérica).
Coge las llaves del coche.
Por outra banda, está a divergência entre alguns fonemas utilizados no resto da lusofonia e os utilizados na Galiza. Para isto também é possível utilizar os critérios empregados no sistema da língua castelã, dado que o dialecto propriamente castelão é ceceante, com um fonema parecido ao /th/ de thought (palavra inglesa), enquanto praticamente a totalidade do resto de falantes são sesseantes, isto é, não distinguem na sua fala entre s e z ou c. Também o castelão carece de sibilantes sonoras do estilo do /z/ de nazione (palavra italiana), enquanto muitos falantes de Hispanoamérica e mesmo de Andaluzia e a Estremadura espanhola utilizam este fonema como algo natural. Isso sem contar os múltiplos sons que os falantes dão às grafias y e ll: desde a forma uruguaio-argentina do famoso yo (que soa parecido com xô) ao que se utiliza por falantes cântabros (que soa quiçás como iô). Sem esquecermos a diferença entre b e v, inexistente no dialecto castelão, porém muito marcada noutros.
Portanto, demonstrada a existência de formas verbais ou léxico localizados geograficamente na mesma língua castelã, como é que um conhecedor desta língua, como pode ser qualquer galego escolarizado ultimamente, pode contestar a unidade galegoportuguesa? Por motivos puramente políticos.
Chegámos, então, ao reintegracionismo utilizando dous critérios pseudo-filológicos (eu não são filólogo, uma pessoa com esses conhecimentos poderá dar uma explicação mais rigorosa): observando que as diferenças entre português e castrapo são basicamente estéticas, devidas à ortografia, e comparando a classificação entre língua e dialecto do sistema mais próximo do galegoportuguês (o castelão), observando a sua aplicação. Que dá como resultado que galego e português são dous dialectos da mesma língua.
Terceira via
Quando nenhum dos outros jeitos nos convence (nem romântico nem científico-filológico), ainda nos resta uma outra visão da língua: o pragmatismo. Um falante de galego terá muitíssimas dificuldades para ler os clássicos universais adaptados ao castrapo. As traduções são poucas e não especialmente boas. Também não é doado toparmos bibliografia técnica ou específica dum ramo da ciência ou da tecnologia, porque as editoras não vem a sua saída ao mundo mercantil segundo a visão capitalista da literatura.
O que pode fazer um galego? Muitos costumam capitular e optar pola bibliografia em castelão, e todos sabemos que praticamente todos os clássicos universais da literatura, se não todos, têm uma tradução a essa língua. Do mesmo jeito, é relativamente fácil topar um livro técnico, escrito originalmente em inglês, na sua edição castelã.
Mas, e se pudêssemos ter a suficiente capacidade para não termos de recorrer a uma língua totalmente distinta da nossa? Mesmo se opinássemos que galego e português não são a mesma língua, o seu parecido é inegável por muito obcecados que pudêssemos estar. O problema é a falta de costume de os galegos lermos em português padrão. E escrevermos, obviamente.
Tendo dominada a leitura do padrão de Lisboa, podemos aceder a toda a literatura universal já traduzida e, mesmo, às edições originais da literatura de Portugal e os países lusófonos da Ásia e da África. E, com um pequeno esforço, poderíamos compreender sem problemas a ortografia e o léxico próprios do Brasil.
Um galego, polo facto de nascer no Estado espanhol, tem a obriga de aprender a língua castelã. Os galegos, por graça da História, podemos dispor de duas línguas universais para nos comunicar com o resto do mundo: castelão e português (ou galegoportuguês). E isso sem contarmos com que nas escolas sempre se ensina uma língua estrangeira (mesmo mais estrangeira do que o castelão), quer inglês, quer francês ou alguma outra. Portanto, um galego que aprenda desde a escola português, castelão e, posteriormente, inglês, tem à sua disposição três línguas universais. Duvido muito que, por exemplo, os catalães ou os bascos tenham tanta sorte como nós (basicamente porque o português é falado, apenas no Brasil, por mais de cento e oitenta milhões de pessoas, sem falar na distribuição geográfica, em quatro continentes). O português, embora não seja um dado conhecido, é a segunda língua da internet em número de sítios web, após o inglês. É também a terceira língua mais estendida do mundo, após inglês e castelão, e a quinta em número de falantes. Ou seja, que o pretenso argumento de que o galego não tem saídas pode ser bem matizado segundo a minha visão pragmática.
Em oposição com todo o anterior, o castrapo quase nem é reconhecido oficialmente, produzindo-se situações como a de um deputado galego no parlamento europeu não poder fazer uma intervenção sem avisar várias semanas antes. Isto, obviamente, não acontece com o português, porque a União Europeia conta com vários tradutores e intérpretes fixos. Nem falar no castelão ou o inglês. Daí que suponha muito mais produtivo para o sistema educativo galego e para os alunos deixar o actual castrapo e introduzir no ensino o padrão português. Isso sim, sem esquecermos que falamos português da Galiza ou galego, não lisboeta ou brasileiro.
E, finalmente, chegámos ao reintegracionismo pola via da utilidade, do pragmatismo, sem apelarmos a passados míticos ou argumentações filológicas. Simples: reintegracionismo é futuro, é trabalho, é acesso à cultura; isolacionismo é chauvinismo, é cerração mental, é a morte da língua nas litúrgias da Junta da Galiza.






