Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Houston: temos um problema

A Espanha(1) tem um problema. É uma terra onde uma pessoa pode ter estudos, cultura, saber estar, uma certa inteligência, sentidinho(2)... e dizer cousas do mais surpreendente. Às vezes tenho a sensação de ser um europeu no Japão, já que os costumes de um lugar tão afastado nunca deixarão de me produzir curiosidade e surpresa.

A Espanha(3) tem a capacidade de produzir um tipo de cidadão digno de ser observado por doutores em Medicina, Psicologia, Ciências Ocultas, Ciências das Outras e parte do estrangeiro. Para uma pessoa como eu, nunca criada em dogmas e sim com um pai desses chatos que levam sempre a contrária por desporto(4), não é normal que uma pessoa séria, culta, dialogante, pessoa, defenda a abolição da pena de morte e, sem ruborizar-se, diga que desfruta do assassinato de um animal, nisso que denominam tauromaquia para lhe dar um ar culto, mas que é chamado de toureio. Não o compreendo. E as respostas são dignas dos Arrepios(5): «é costume», «é tradição», «é arte» (esta é das melhores), «é cultura»... Depois alucinam quando sabem que polo mundo adiante comem cães ou gatos, e soltam pérolas do estilo «eu não seria capaz».

Na política há também uma conclusão a que chega muita mente preclara(6) e também não acabo de lhe pegar o senso. A Espanha(7) acaba, como quem di, de sair de uma ditadura das mais longas da Europa do século XX, se não a mais longa de todas. Parece que essa longa noite de pedra(8) afectou demais os espanhóis. Para um destes indivíduos entram na mesma saca as expressões «Estado democrático» e «ilegaliza-me esses filhos da puta»(9). Ou seja, vem como algo normal numa democracia(10) haver partidos legais e partidos ilegais. Também vem como algo normal deitar a opção de mais de cem mil pessoas à cuba do lixo. Assim como se lê: cem mil pessoas ficam sem poder votar a opção que desejam.

Não estamos a falar de dous ou três moinantes. Num suposto assim o governo de turno podia metê-los presos e deitar a chave. Não seria justo mas efectivo. O problema (para eles) é que o assunto basco não vai ser solucionado a base de acções policiais-clericais(11). Que exista nalgumas pessoas o sentimento de serem invadidos dá uma ideia da futilidade de tais acções. É complexo mas é assim.

O problema não fica aí. Em Euscádi(12) vivem actualmente num estado de excepção. Estão fartos tanto as vítimas dos assassinos quanto as vítimas dos torturadores. Naquele país expressar algumas opiniões dá-che amigos e inimigos instantaneamente. Curioso lugar onde, nas últimas eleições municipais(13), fôrom ilegalizadas candidaturas da Esquerda Abertzale(14). Há situações tão absurdas(15) como a de Lizartza, que em 2004 contava com 612 habitantes e cuja presidenta da Câmara Municipal foi escolhida por 27 votos. A vila era considerada «feudo da esquerda abertzale» até as passadas eleições. Desde outros lugares a presidenta é vista como uma heroína...

É curioso como os problemas se complicam conforme os temos mais perto.


Notas:
  1. Conceito abstracto utilizado quando se quer fazer referência aos países do Estado espanhol sem exclusões nem menções específicas. Que não me comam os indepes da retórica revolucionária.
  2. Aquilo que fora da Galiza costuma chamar-se de sentido comum, que, por outra banda, é o menos comum dos sentidos.
  3. Que sim: utilizarei essa palavra em troques do cansativo Estado espanhol.
  4. Outros fão a quiniela. O meu pensa de jeito oposto ao meu. Ou será ao revés? Cria corvos...
  5. Para os leitores residentes no Estado espanhol (agora sim!): Pesadillas.
  6. Não produz uma sensação curiosa isso de chamar atrasado mental sem que se note? Adoro ser galego!
  7. Deixa de olhar as notas e concentra-te no texto, que para isso é que o escrevo.
  8. Sim, eu também lim clássicos da literatura galega.
  9. Também é compatível para alguns demandar um referendum no Saara para decidir sobre a sua autodeterminação enquanto negam qualquer possibilidade de fazê-lo nalgum país do Estado espanhol. Spain is different.
  10. Ou isso que nos fão ver como democracia. Os significados cambiam conforme ao governo.
  11. Quer dizer, a base de hóstias.
  12. País Basco, Euskal Herria (se inclui Nafarroa/Navarra), Euskadi, provincias vascongadas... será por nomes.
  13. Ou autárquicas, para os lusófonos-não-galegos.
  14. Esquerda independentista basca.
  15. Ou descaradamente injustas.

2 comentário(s):

L. Celeiro disse...

Agregueite a minha lista de bloges amigos, por certo moi interensate o artigo sobre o "escudo" da Galiza.

Somos los platero disse...

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